1 de Maio de 2026 · Carta #1
Quatro meses, depois de anos a fugir
A primeira carta, escrita no exacto momento em que disseram que já era tarde.
"A dor e o sofrimento são sempre inevitáveis para uma inteligência grande e um coração profundo." — Dostoiévski
Sei que é estranho abrir uma newsletter de tech com Dostoiévski. Abro precisamente por isso.
Há quatro meses comecei a levar a programação a sério. Dezembro de 2025. Antes disso, anos a saber o que queria fazer e a não fazer. Tinha o terminal aberto, fechava-o. Começava cursos, abandonava-os. Comprava livros, deixava-os a apanhar pó. Sabia que esta era a coisa, e fugia da coisa.
Agora estou aqui. E o detalhe absurdo é o timing. Comecei em cheio quando o ruído mais alto na minha bolha é "a IA vai matar a programação, esta carreira acabou, sai enquanto podes". Os mesmos sites que há dois anos diziam que toda a gente tinha de aprender a programar agora dizem que ninguém devia aprender. Entrei pela porta no momento em que estão a martelar tábuas por cima dela.
Pergunto-me porquê agora e não em 2022, ou 2020, ou 2018. Não tenho resposta limpa. Talvez seja idade, há um certo cansaço de ver versões minhas a começar e a morrer. Talvez seja o caos da IA que forçou a decisão: ou levo isto a sério agora, com o que tenho, um portátil velho, sem GPU, sem cloud bill, modelos a correr localmente, ou desisto de vez e paro de mentir a mim próprio.
A frase do Dostoiévski não é desculpa de mártir. É factura. Procrastinar dói menos no momento, é por isso que se procrastina. Levar a sério dói mais. O dia em que escrevo código que não funciona dói. O dia em que percebo que o que me demorou seis horas, um modelo decente faz em seis segundos, dói. Mas é o único tipo de dor que deixa alguma coisa para trás. A outra dor, a de adiar, gasta-se a si própria e não constrói nada.
Esta carta é a primeira de muitas. Escrevo-a eu. Uso IA para limpar a sintaxe e organizar o que sai do meu cérebro de forma menos caótica. Não para pensar por mim, esse é o ponto inteiro. Se a deixasse pensar, nem valia a pena escrever.
Para quem anda há anos a adiar alguma coisa: hoje, a única regra que importa é fazer ship de algo pequeno. Ridiculamente pequeno. Um script de 30 linhas, um post, um email a um cliente que andas a adiar. Mas hoje. Não em Janeiro. Hoje.
Quatro meses não é nada. Mas é mais do que zero. E zero é onde estive demasiado tempo.
— Quaresma